quarta-feira, 3 de agosto de 2016

No amor...


no amor, cabe a insubordinação
dos venenos soltos pelos ares
do banho proibido
até do beijo perdido
do exagero, como regra
sem remédio ou veneno

cabe o sussurro no ouvido
a pimenta aquecida
na noite fria, quente
no medo da tempestade

no amor, cabe a dor
a separação interminável
o adeus não desejado
o raio da existência inexplicável

no amor, cabe o mundo
seu tramas, dilemas
os suores esquecidos
os soares que enaltecem
cabe a infidelidade
a sacanagem
o furor

no amor, cabe lealdade
o pedido, o por favor
cabe a liberdade do corpo que é só seu

no amor, cabe a sensação do dia cansado
ou o dia, terno, docemente envergonhado
a timidez da fala guardada
a fugaz frente da voz sem entrada
os dias sem rotação que aquece o orgasmo sem fim

no amor, cabe os corpos distantes, magoados
os reencontros sem tempo, nem hora
os sorrisos dos vinhos baratos
ou o Porto com queijos curados

cabe a bandeira surrada
a comida salgada
a conversa intelectualizada
e o silêncio da praia esquecida
ou da casa abandonada

Cláudio de Souza Mendonça
09 de fevereiro de 2016



sexta-feira, 1 de junho de 2012

Insano


 
tem olhos de águia
mas cegos
nada veem senão aquilo que reflete
teu pensamento grotesco
sobre a humanidade
destruídos os limites da saciedade
engolindo a literatura literalmente
cansado  dos verbos conjugados
sempre tão iguais
médico dos sinais
exclamativos
condicionais
juiz das paredes julgadoras
dos segredos ocultos
gritados em sussurro
vitima de si
paciente da ignorância
que nada lê
que nada vê
que nada
nada
nada tudo
nada por que
amigo confidente da loucura
cientista sonhador
a envenenar-se com a descoberta
coberta de cobertor
dos sonhos de menino
de lutador
derrotador de monstros
vitorioso ou assassino
plagiador das cartas dos cassinos
chumbo nas pedras, moedas
vitorioso ou enganador
sorte de principiante
gênio sem sentido
feliz demais para ser normal
enganador revestido
de uma selvageria de um animal

Andréia Monteiro
2012

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

As suas bonecas, os seus sonhos



lá está a Maria Cascuda, sentada
olhando será o que
se nem pode me responder?
sei que ela brinca em silêncio com Maluzinha
tentando ter a atenção da Clarissa
ou talvez do Luís

brincam querendo acordar, descansar
na hora que bem querer
sem precisar
que a luz as chamem
ou a escuridão as façam dormir

sei que a Mônica, Juju, Tetê, Amarelinha
expressam sons bem distinto dos nossos aqui
mas qual a importância
se tu, Anita,
queres mesmo é assim?

brincar da forma que bem querer
sem tempo de parar
quer ser feliz

ali, em sua cama,
com seus travesseiros e lençóis
o mundo gira
com suas amiguinhas de fantasia

brinque. Nem pense em deixar de brincar
com seus tantos personagens
que emergem de sua imaginação
assim vai brincando, sem se preocupar
com a caduquice do tempo
seus delírios
e venenos

Cláudio de Souza Mendonça
23.05.11

Poesia dedicada a Aninha e suas amiguinhas de travesseiros

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Estrelas


Escutai! Se as estrelas se acedem
será porque alguém precisa delas?
Porque alguém as quer lá em cima?
Será que alguém por elas clama,
por essas cuspidelas de pérolas?
Ei-lo aqui, pois, sufocado, ao meio-dia,
no coração dos turbilhões de poeira;
ei-lo, pois, que corre para o bom Deus,
temendo chegar atrasado,
e que lhe beija chorando
a mão fibrosa.
Implora! Precisa absolutamente
duma estrela lá no alto!
Jura! Que não poderia mais uportar
essa tortura de um céu sem estrelas!
Depois vai-se embora,
atormentado, mas bancando o gaiato
e diz a alguém que passa:
"Muito bem! Assim está melhor agora, não é?
Nõa tens mais medo, hein?"

Escutai, pois!Se as estrelas se acedem
é porque alguém precisa delas.
É porque, em verdade, é indispensável
que sobre todos os tetos, cada noite,
uma única estrela, pelo menos, se alumie.

Vladimir Maiakovski

sábado, 19 de novembro de 2011

O meu amigo, a faca e alguém




o meu amigo foi esfaqueado
perguntariam as mais sinceras perguntas
no enlameado choro e candura
“quem foi o desgraçado?”
ali, as fúrias dos mortais. Outros rezam.
pedem desesperadamente que o médico do céu o opere.
a ira nos olhos. A vontade de ir até quem fez isso
e com o sopro de gigantismo arrombar o responsável

do quarto onde o meu amigo esfaqueado se encontra
alguns cochicham. “O que teria ocorrido”
a resposta, brilhantemente..Sábios senhores
“ele vacilou voltando aquele horário”

BRAVO!

diriam a nós a imensidão de cérebros cinzentos
abertos pela pedra filosofal de nossos tempos
fechados pela simbologia de tantos tempos
tudo igual!
sempre o mesmo dizer
só que meu amigo está lá na cama esfaqueado
alguma mão fez isso. Quem pagará?

rogai enfim pela justiça
esperaremos sim. Ela tarda, mas vem.
oh! Mas como vomitar estas coisinhas dos códigos penais
e chorar de emoção onde sentimentos não existem?
gritar por alguém
onde ninguém ali habita?
das leis, apenas letras,
recheadas de baboseiras dos célebres juristas da paz
de lá se espera algo?

nascerá alguma rosa dos tribunais
ou permitirão que os jardins exalem seus aromas
sem serem molestados por algum capataz?

estamos diante dos tribunais
do processo inquisitório
que todo dia condena uma imensidão de corações machucados
e coroa - engrandecidos
com os mais belos louros - uma minoria bastarda

BRAVO, BRAVO...

esperamos pela grade
e que lá apodreça a mão que esfaqueou meu amigo?

nas ruas de lá
onde meu amigo esfaqueado se encontra
deitado
se recuperando
assistindo a seu time ser rebaixado
as palavras soam docemente
como se nem tivesse ferido
nem tivesse sido gravemente atingido

lá, nas ruas que meu amigo reside
uns queriam junto com outros uma resposta ali dar
com porretes, pedras e outras coisinhas básicas mais
encontrar a maldita mão...
os desgraçados passos...
os endemoniados olhos...
achar o infernizante jovem que aquilo fez

lá, nas mais entupidas ruas,
onde o lixo se torna habitual
casas paupérrimas tentam ainda se soerguer
alguns rezam
oram
sabem bem que o leão de Judá
o todo criador
e seus pastores e anjos
darão a verdadeira justiça
a justiça dos túmulos
ilusória justiça....
maldita justiça

BRAVO, BRAVO, BRAVO....

lá... não tão só naquelas ruas
se busca encontrar a mão
aquela suja mão pelo sangue do meu amigo

certamente se saberá o que fazer
já que leis existem
e confiná-lo entre grades é a mais bela solução

como meu peito vibra
meus lábios se deliciam
pois atrás da grade estará aquele infeliz
o apodrecido que esfaqueou meu amigo

lembre-se bem. Meu amigo foi esfaqueado
ele clama por justiça
clama
clama
e clama..e chora...

lá, no internato moderno,
não seria lá igual com o daqui de fora?

a porca comida que se come naquele antro de “assassinos”
não é a mesma imundice que se come do lado de fora. Cá?

o furto cometido por estes infelizes
seria menor que os rombos congressuais, legais?

no desespero do momento.. O meu amigo gritava de ira
“seria melhor que este desgraçado morresse”
na sua sã consciência.. o meu amigo nos diz
“buscarei a lei”
mas meu amigo, muito feliz, vamos lá..
diz..
“ mas quem mesmo faz as leis?”
“quem mesmo me esfaqueou?”
a ti, sim, meus mais autênticos BRAVOS

poderia decidir como um tribunal
sentenciar a vida como ela é
deixar-me ir embora de mim qualquer pensar distinto
compreensão que para os não condenados pela inquisição
é mera provocação
ingenuismo
utopismo

soube lembrar bem, querido amigo,
dos olhos daquele jovem ali
e jamais se esqueceu dos seus criadores
desses tantos jovens
que com a faca na mão
desesperadamente mostram de uma forma desconfortável
“vejam! Sou apenas um produto”

Cláudio de Souza Mendonça
26.10.2009

O enterro



há uma sensação estranha em meu peito
ocorre aqui a saudade?
tudo visto na minha frente
anda em câmera-lenta
devagar teima em prosseguir
como se não fosse chegar lá


tenho a entender
este meu momento-dia-hora
parecido como qualquer um
vai seguindo com passos lentos
quase dormindo
diferente do sono eterno
dos que nunca vão se levantar

pode ser o cansaço
de viver?
não!
apenas físico
estafamento anunciado
dessas jornadas, compromissos, ordens...

seria este dia apenas um soluçar
de uma voz escondida
ela há de sair
explicar tudo
o peito apertado
a saudade
os sonhos

quase durmo acordado
refazendo tudo
lembrando do que poderíamos ter feito juntos
hoje já não se pode mais
nunca mais
nunca mesmo


13.09.2007
Cláudio Mendonça

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Serenata

"Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permita que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,e a dor é de origem divina.
Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo"

Cecília Meireles

sábado, 4 de junho de 2011

Meninices bem vindas

Meninices bem vindas

Hoje,
diante da dureza da vida,
lembro que se está apenas a começar.
Os passos são tantos,
tantos mesmos
que nenhum suor há de nos fazer desanimar.

Tristezas virão,
tentando sufocar aquela alegria contagiante.
Estupidamente exagerada.
Resistindo em cada sorriso,
nos tantos sorrisos meninos,
que vão emergindo
como da minha criancinha que a este mundo virá

Sofreria mais se não tivesse esperança,
pois sonho,
sonho tanto,
que perco meus documentos,
prazos de contas, condomínios, ônibus...

Espero ansioso esta criancinha chegar.
Sei que o mundo não é um fácil convite,
só que diante do que parece banal,
transformaremos o difícil momento
em algo fantasticamente saboroso.
Cada passinho dado será genial

Venha criancinha minha,
amolecer mais este peito,
tão perplexo com o habitual,
esperando que novos rios possam correr
cheios de peixes, bichinhos e compreensão.


Ao meu Vladimir Malone ou Maria Cláudia, com amor do seu pai
Cláudio de Souza Mendonça
18.05.2011

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Pinturas da vida


Há tempo não desenho...
Lá, na minha criancice
era a mais brilhante forma de brincar.
Brincava, brincava,
não cansava de criar.

Hoje, que dizem que sou crescido
já não faço heróis.
Nem luto com brinquedos de papéis.
Há outras lutas
incompatíveis com meus lápis
que queriam apenas que eu fosse feliz.

Cláudio de Souza Mendonça
08.01.2011

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Quando pudermos descansar no bosque



de tanto chamar
escuto novamente. uma voz doce
acalentando as avenidas estressantes das cidades.

de tanto amar
sinto exatamente. a flor renasce
exalando perfume nestas estafantes avenidas.

tanto tentam. fecham constantemente as portas
esquecendo que vozes
ultrapassam paredões.

tanto fazem. aprisionam nossas mentes
esquecendo que o sangue pulsa
em nossos aguerridos corações.


Cláudio de Souza Mendonça
16.08.2010

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O policial e o pequeno trabalhador morto



seria cruel relembrar. mas não se pode esquecer.
estejamos acordados. não durmamos mais.
sei que a revolta toma conta dos peitos. não poderia ver sofrimento ali.
a dor da partida súbita e grosseira
quando tão pouca vida ainda existente
conduziu ao funeral uma vida ainda aflorar.
noutra, com o peso da obrigação militar
cumpre o destino ensinado nas academias
“matar, matar e matar”

pobres homens. um pai ao grito deitado sobre eterno sono do seu filho.
outro homem fardado, ao desespero do ato desgraçado.

um corpo tão jovem ainda, abatido por um perverso tiro
outro, em pé, arrependido, por seu sangue frio.

teria culpa apenas aquele policial assassino?

seria cruel relembrar. mas não se pode deixar partir
para que se atente para o escondido.
antes das fardas, meros homens.
ao se vestirem e partirem para patrulhar
homens de ferro, aço e cimento.
que ao primeiro passo não obedecido
as armas são logo apontadas.
cumprem fielmente apenas o destino ensinado nas academias
“matar, matar e matar”

Cláudio de Souza Mendonça
28.07.2010

terça-feira, 10 de agosto de 2010

João Boa Morte Cabra Marcado para Morrer


"Essa guerra do Nordeste
não mata quem é doutor.
Não mata dono de engenho,
só mata cabra da peste,
só mata o trabalhador.
O dono de engenho engorda,
vira logo senador.

Não faz um ano que os homens
que trabalham na fazenda
do Coronel Benedito
tiveram com ele atrito
devido ao preço da venda.
O preço do ano passado
já era baixo e no entanto
o coronel não quis dar
o novo preço ajustado.

João e seus companheiros
não gostaram da proeza:
se o novo preço não dava
para garantir a mesa,
aceitar preço mais baixo
já era muita fraqueza.
"Não vamos voltar atrás.
Precisamos de dinheiro.
Se o coronel não quer dar mais,
vendemos nosso produto
para outro fazendeiro."

Com o coronel foram ter.
Mas quando comunicaram
que a outro iam vender
o cereal que plantaram,
o coronel respondeu:
"Ainda está pra nascer
um cabra pra fazer isso.
Aquele que se atrever
pode rezar, vai morrer,
vai tomar chá de sumiço [...]".

Ferreira Gullar

(Leia Ferreira Gullar e conheça esta poesia completa)

A eterna esperança

os bons dias um dia serão diferente?
é a eterna esperança.
conduzindo entre as enxurradas das noites calientes
e a eletricidade frenética dos dias
suor qualquer,
o nosso.

a solidão das grandes metrópoles
camuflada pelas histerias e psicoses.
sempre saídas fáceis são apresentadas.
é a eterna estreiteza
de sofrimentos calejados
não.. não... não posso acreditar que seja isso a saída.


estrondos são comunicados
nos emails, blogs, microblogs
aqui, ali... muitos saberão... quase todos
mas não somos uma aldeia global
sorrindo do mesmo jeito,
chorando da mesma maneira.


não... não deixarei de acreditar na eterna esperança

diante do culto à angustia,
à solidão das avenidas movimentadas,
aos ambientes psicóticos,
seguimos com pé no chão a eterna esperança


Cláudio de Souza Mendonça
20.07.2010

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010


Canção da última despedida

Saídas como estás são tão atrativas
Somente hoje
no entardecer do dia
alguns inúmeros corriam pelas ruas
Comum além dos sustos
as esfareladas vidas: também um esforço de esperança

é justamente lá
entre becos, ruelas e corações partidos
vozes soam tristemente mais uma partida, tantas....

sem nem tempo pra dizer adeus

não mais último beijo
nem abraço
carinho
se foram.....


Cláudio de Souza Mendonça
13.01.2010

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Os Ombros Suportam o Mundo


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

Do livro, Sentimento do Mundo

terça-feira, 29 de setembro de 2009

versinhos

vendo assim tão quietinho
dá uma sensação tão boa
de felicidade fininha ...
de mãozinha quentinha!

essa noite tão fria...
trouxe a saudade
do jeitinho mancinho
de ficar assim bem juntinho!

e que bom seria
ficar de mãos dadas
adentrar a madrugada
enquanto o soninho corria ...ZzzZzz

é desse jeito assim
que me sinto feliz
com toda saudade
e essa tal fê...lícidade!


Eline Barreto.

Do nascimento à vida

desde o nascimento, quando tudo é uma descoberta,
a vida é uma estranha senhora
e as senhoras vão cuidar de seus jardins
com flores vermelhas escuras
e as flores vermelhas escuras vão perfumar
com suas fragrâncias despertadoras
que despertam corações desorientados
escondidas atrás de muros de longínquas estradas
para que o misterioso não continue onde está
e o nascimento surja como o esplendor do renascer
perante vida que não volta mais
diante de mortes que são finais
sentimentos resistem mesmo quase terminais
a vida não pede licença para existir
nem um palmo a menos
nem uma légua se desfaz
segue firme como sempre
com a sensação daquelas corajosas senhoras
que regam os jardins de flores vermelhas escuras
como a mãe de Pavel
como nossa mãe
como a mãe da vida


Cláudio de Souza Mendonça
20.02.2008

No Caminho, com Maiakóvski

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de me quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

Eduardo Alves da Costa

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Aprendizado

Ferreira Gullar


Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.



De Barulhos (1980-1987)

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

As Megacidades

se têm então estas megacidades,
vêm acompanhadas de suas megaperiferias,
trazendo cedo,
antes de ver o sol,
um exército de mãos, pés e corações
andando pelos labirintos
dos espaços opacos,
dos sinais intrafegáveis
lá se vêm as megacidades

do porto ao lado
vários achados
presos, hospícios, cadeados.
certezas fúteis que tudo encalha
no noticiário
as mesmas cenas
que foram transmitidas ano passado
histórias dos nossos passos largos,
da concentração da produção no luminoso espaço

no corrimão da vida podre
normal para quem vive a rir
do desprezo fato de todos os seres
que cedo madrugam para resistir

na vida toda desde o nascer,
se vê que corre os rios assim
dia de suor, sem pormenores
com as fardas no corpo pronto a partir

lá se vêm de novo as megacidades
com suas construções horizontais
sem palmo dado sem arriscar
a própria vida,
com sussurros aloprados

são mais de 10 milhões de vidas ali estando
com passeatas, desigualdades e homens fingindo
que tudo é uma maravilha

Cláudio de Souza Mendonça
08.10.2007